Religião

Religião na Comunidade Quilombola Vovó Isabel

Como é de conhecimento de alguns, a religião de matriz africana mais conhecida e celebrada no Brasil, é o candomblé, praticada a partir da vinda forçada dos negros para nosso país, a qual foi reprimida por ser considerada bruxaria, pela religião dominante de então, no país e no mundo, o catolicismo. Desse modo, segundo registros da comunidade Vovó Isabel, localizada na área rural de Nova Palma (RS), um dos primeiros moradores, Pedro Pinto, filho de uma ex-escrava, era cristão e batizado na igreja, mas então já havia outros moradores na comunidade que, possivelmente, eram praticantes de cultos afro, do que há apenas relatos.  Anos depois, como não havia capela na comunidade, os moradores passaram a frequentar a igreja na localidade vizinha, e em 1945 houve a construção do capitel ainda hoje existente no quilombo Vovó Isabel, sendo uma promessa do casal Augusto e Paula Santi Scolari para sua filha Aurélia.  A partir da construção deste capitel as pessoas oravam em frente ao mesmo, com a participação do ministro da comunidade vizinha ou do padre, uma vez por mês, bem como eram realizadas procissões, organizadas pelos moradores, subindo até o cume onde estava o capitel, na busca por graças e bênçãos, principalmente nos tempos de seca. 
 

Em 1981, a reforma do capitel deu ensejo à construção de uma capela em seu entorno, fato que reforçou o desejo de mudança do nome da comunidade - Rincão da Cadeia -, por ser considerado ofensivo e visto com maus olhos pelos moradores e também pelas comunidades vizinhas, tendo o padre Luizinho escolhido, como padroeiro, Santo Inácio, que acabou por se consolidar como denominação da comunidade. Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem chegou à localidade em meados dos anos 2000, carregada pelo padre Ruben Natal Dotto, também é considerada padroeira da comunidade. Em 1996, após a formação do primeiro Conselho da Capela, o templo passou a ser independente da localidade vizinha, tendo suas celebrações, orações, festas em homenagem aos seus padroeiros, casamentos, batizados, etc., na própria comunidade, cuja edificação foi reformada e ampliada, em 2015. Na comunidade há, também, uma igreja evangélica, construída em meados de 2009, onde ocorriam cultos todos os sábados, a qual se encontra fechada há alguns anos.
 

Diferentemente das religiões ocidentais, na cosmovisão africana “é possível constatar o porquê da existência de várias formas específicas de compreender e praticar aquilo que o crente percebe como sagrado” já que se trata de tradição oral – não escrita – e, pois, a cada vez que se volta à fonte, há uma reinterpretação, das rezas e rituais, por exemplo. É por isso que se vai encontrar relatos de que as benzedeiras não podem passar seus conhecimentos acerca das plantas para alguém da família, preceito que não é consenso entre as comunidades quilombolas onde este recurso é, muitas vezes, a única prática de cura possível, seja pela distância de equipamentos de saúde, seja pela falta de condições financeiras, seja, ainda, por convicção de que ser humano – dito racional ou irracional – é um todo, onde corpo físico, mente e alma são indissociáveis, ou seja, nunca um deles adoece sozinho, como a biomedicina o compreende, e trata. Assim, as práticas de benzimento – muitas vezes “reforçadas” com medicamentos convencionais – ainda é muito presente nos quilombos, sendo que no Vovó Isabel, já há alguns anos, resta apenas um benzedor, cujos conhecimentos convém, talvez, registrar, ainda que violando a tradição da oralidade, como forma de resistência à modernidade/colonialidade, que hierarquiza saberes a ponto de invisibilizá-los.
 

Texto produzido por William da Silva e José Luiz de Moura Filho

 

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